Arte
Revestida de realidades: os azulejos de Athos Bulcão e Adriana Varejão como reflexão.
Os azulejos, em suas múltiplas estéticas, transcendem a mera funcionalidade de revestir espaços. Nas artes, alimentam o nosso olhar propondo narrativas conceituais para o design e a arquitetura.
Nas mãos de artistas brasileiros como Athos Bulcão e Adriana Varejão, eles se elevam à condição de potentes superfícies de reflexão. Bulcão - com sua geometria lúdica e cores vibrantes - imprime em seus painéis uma sensação de movimento e alegria, convidando o olhar a dançar sobre as formas.
Varejão, por sua vez, tensiona frequentemente a história da azulejaria, expondo camadas, fragmentos e a própria materialidade da cerâmica para evocar memórias e fazer questionamentos sobre a identidade cultural brasileira. Ambos, cada um à sua maneira, utilizam o azulejo não apenas como ornamento, mas como um espelho onde se refletem diferentes facetas da nossa experiência e história.
Na Newsletter dessa quinzena recebemos a Carola, brasileira que vive em Buenos Aries, mestre e pesquisadora em arquitetura. De olhar sensível, linka esse contexto refletindo sobre a nossa rica e diversa brasilidade.
“Estava eu no Rio de Janeiro passeando pelo bairro de Ipanema e entro em uma das suas galerias comerciais. Buscava uma cafeteria, mas desvio o olhar para um painel de azulejos bonitos. Fotografo e, logo sou abordada por alguém com onda de vendedor; ele me questiona se sei a autoria daqueles azulejos que revestiam a parede do jardim externo em que estávamos. Não sabia. Ele, com um sorriso irônico, perguntou por que fotografei. Achei bonito, respondi em um misto de desconforto e desconfiança. Com uma risada, disse que era do Athos Bulcão e que se eu estivesse interesse em adquiri-los podíamos ver uma maneira. O edifício será reformado e tudo isso será entulho, disse ele olhando para o mural. Minutos depois, enquanto apreciava o café, me sentia ainda incomodada com o que havia acontecido. O mural não se parecia em nada com a estética do artista.
Athos Bulcão, carioca nascido em 1918, expressou bem a sua sensibilidade canceriana na pintura. Quando conheceu Portinari, que já revestia com azulejos paredes em projetos do Oscar Niemayer, ele tinha 21 anos e começou a vida profissional sendo seu assistente no mural da Igreja São Francisco de Assis na Pampulha, Minas Gerais. Daí em diante, o concreto foi o suporte para um quebra-cabeça que ele nos revelava já montado, acessível para ser visto e apreciado.
Como não encontrei na galeria virtual da Fundação Athos o painel de Ipanema, enviei para eles a foto que fiz. A imediata resposta foi a de que, aparentemente, ela não apresenta traços bulcanianos. Compartilhei o endereço a pedido deles para seguir com a investigação. Enquanto isso, segui minha pesquisa do lado de cá conhecendo mais sobre o artista que naquele momento estava na mídia por ter tido três obras de sua autoria depredadas no atentando ao patrimônio público de 08 de janeiro de 2023 em Brasília, cidade em que também está concentrada a maior parte de sua produção artística.
Mesmo indo para outras materialidades além do azulejo, ele é a peça principal para pontos de cor nos tantos metros de concreto que servem como seu suporte. É criada uma unidade. A obra como parte inseparável da arquitetura. O modernismo, como projeto artístico e arquitetônico, nos conta a história de um tempo e reflete nossa construção de pensamento, nossa nova forma de viver. As abstratas composições, um padrão repetido por vezes em cores ou tons variados como expressão de movimento.
"O artista tem de saber o que quer fazer", disse Athos. Um artista modernista com a arquitetura ao seu favor. "Arte é cosa mentale", reforça a ideia em uma citação à la Leonardo da Vinci.
Muitos azulejos são mais material do design do que da arte. Mas, na rua B, número 20, no eixo laranja, ponto G7 de Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, Brasil, podemos afirmar que a arte e o azulejo se encontram. Uma, duas, artes contemporâneas resultado de consciência, pesquisa e sensibilidade. Nessa localização está o pavilhão da Adriana Varejão e a sua ousadia bonita de ver e pensar.
O edifício foi projetado por Rodrigo Cerviño para receber várias obras da artista carioca, com uma curadoria que cumpre sua função de integração entre elas. O primeiro olhar foi para os azulejos brancos cobertos de tinta a óleo que Varejão diz ter tido contato pela primeira vez ao ser convidada para fazer a obra Panacea Phantastica que vemos na entrada do bloco de concreto que marca território. É verdade que ela já usava tintas para pintar azulejos em tela, eles já estavam aí como uma estética sua, mas é em 2003, a partir de Panorama da Arte Brasileira, obra em exposição no MAM de São Paulo, que vem a proposta de pintar sobre o próprio azulejo.
Na época, Varejão estava envolvida em uma pesquisa sobre plantas alucinógenas usadas pelos pré-colombianos da região do atual México. Panacea Phantastica é um conjunto de 50 azulejos com pinturas de plantas que vão de cogumelos a cannabis. Um catálogo com tamanho de dois por dois metros em formato de banco para sentar, deitar, deixar-se sentir, relaxar. Ainda na parte externa, no andar superior, mais azulejos, esses com pássaros – de Inhotim a Demini (2004-2008). Bonito de ver. Passarinhos da fauna amazônica, mais especificamente de Watoriki, que fica na região do rio Demini, na terra indígena do povo Yanomami, onde ela passou uma temporada imersa.
No interior da Galeria, Varejão tem seu interesse pela história da colonização portuguesa exposta em (e entre) quatro paredes. Na obra Cecalanto provoca maremoto, os maxi-azulejos brancos com pintura em azul, uma estética barroco-portuguesa-brasileira desconstruída recebe um craquelado artificial representando a real passagem do tempo.
A aparência de desordem na posição em que foram colocados os azulejos sugere o efeito de um maremoto, uma grande onda. Forte e intrigante.
Em tempos que voltamos o olhar para a arquitetura e o design modernos, o azulejo também vai ocupando um lugar no nosso radar de referências. Não trouxe os azulejos bonitos sem autoria para casa, mas esses dois cariocas tão íntimos deste material estão aqui me revestindo de pensamentos, influenciando o meu sentir.”
Alguns livros e outros insights:
Visitar: O Instituto Inhotim é um museu de arte contemporânea e jardim botânico localizado em Brumadinho, Minas Gerais. É considerado um dos maiores museus a céu aberto do mundo, vale separar dois dias para conhecer.
Tour: na galeria virtual da Fundação Athos Bulcão você pode conhecer mais sobre as obras do artista que são pinturas, fotomontagens e desenhos.
Livro: Oração Para Desaparecer de Socorro Acioli. Sobre a coragem de mudar e sobre a vontade de ficar.
Podcasts: Braincast é um podcast semanal com sendo critico e leveza, cria conversas autênticas sobre cultura digital, comportamento, inovação e negócios, sempre refletindo quais faíscas vão impulsionar nosso presente e futuro.
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